Cardiologia Geral

Quando fazer um check-up cardiológico? O guia definitivo por faixa etária

Dra. Marina Maia19 de abril de 20269 min de leitura
Ilustração editorial de um estetoscópio envolvendo uma onda de ECG

Check-up cardiológico não é um exame único — é um conjunto de avaliações personalizado para a idade, o histórico familiar e os fatores de risco de cada pessoa. Fazer o exame certo, na hora certa, é o que permite agir antes do primeiro evento. Abaixo, um panorama por faixa etária.

Antes dos 30 anos

Em adultos jovens sem fatores de risco, o foco é estabelecer uma linha de base: pressão arterial, perfil lipídico (colesterol total, LDL, HDL, triglicérides), glicemia e índice de massa corporal. Em pessoas com histórico familiar de doença coronariana precoce — homens antes dos 55 e mulheres antes dos 65 — vale antecipar a dosagem de lipoproteína(a), um marcador genético raramente solicitado.

Para atletas ou pessoas que iniciam treino físico intenso, ECG de repouso e avaliação clínica detalhada são recomendados para descartar causas de morte súbita relacionadas ao esporte.

Dos 30 aos 40 anos

É a faixa em que muita gente ainda se sente jovem demais para pensar no coração — e exatamente por isso é o momento de começar uma avaliação periódica. Repetir o perfil lipídico, medir circunferência abdominal, avaliar pressão arterial e glicemia anualmente são o mínimo.

Pacientes com fatores de risco (tabagismo, obesidade, diabetes, hipertensão, histórico familiar precoce) podem se beneficiar de avaliação cardiológica específica, ECG de repouso e, em casos selecionados, escore de cálcio coronariano para quantificar placa subclínica.

Dos 40 aos 60 anos

Aqui a estratificação se aprofunda. Além dos exames de rotina, o escore de cálcio coronariano ganha papel central — é um exame de imagem rápido, sem contraste, que mensura a presença de cálcio nas artérias coronárias e refina o risco de forma significativa.

Outros exames frequentes: ECG de repouso, ecocardiograma se houver sopro ou suspeita estrutural, e teste ergométrico ou ergoespirometria em sintomáticos ou em quem deseja prescrição de exercício mais segura. Marcadores como ApoB e PCR ultrassensível complementam o perfil.

Após os 60 anos

A prevalência de hipertensão, fibrilação atrial e insuficiência cardíaca aumenta nessa faixa. A avaliação passa a incluir, além do que já foi citado, atenção ao ritmo cardíaco (com Holter quando necessário), função renal, função ventricular pelo ecocardiograma e rastreio de fibrilação atrial em pacientes com risco aumentado de AVC.

Sintomas como cansaço aos esforços, palpitações, edema de pernas ou dor torácica nunca devem ser tratados como 'coisa da idade'. Eles são, com frequência, a primeira manifestação clínica de uma doença que estava silenciosa há anos.

Quando antecipar, independentemente da idade

Histórico familiar de infarto, AVC ou morte súbita precoce; presença de diabetes, hipertensão ou colesterol alto não controlados; tabagismo; sintomas como dor torácica, palpitações persistentes, síncope ou cansaço desproporcional; e doenças autoimunes como artrite reumatoide ou lúpus, que aumentam o risco cardiovascular. Em qualquer um desses cenários, a avaliação cardiológica deve ser antecipada, mesmo em pacientes jovens.

Conclusão

Um bom check-up não é o que tem mais exames — é o que tem os exames certos, interpretados em conjunto, à luz da história clínica de cada paciente. O momento do diagnóstico molda o prognóstico: identificar risco antes do sintoma é o que torna possível mudar a trajetória da doença cardiovascular.

Referências

  • Diretriz de Prevenção Cardiovascular — Sociedade Brasileira de Cardiologia.
  • 2024 ESC Guidelines on cardiovascular disease prevention.
  • Greenland P, et al. Coronary Artery Calcium Score: an evidence review.