Doença Coronariana e Aterosclerose

O que é aterosclerose e por que ela começa décadas antes dos sintomas

Dra. Marina Maia22 de maio de 20268 min de leitura
Ilustração editorial de corte transversal de uma artéria com placa aterosclerótica

A aterosclerose é, hoje, a principal causa de morte no mundo — e quase sempre é diagnosticada tarde demais. Quando o primeiro sintoma aparece, como dor no peito aos esforços, infarto ou AVC, a doença já se instalou há décadas no interior das artérias. Entender esse processo silencioso é o primeiro passo para mudar o prognóstico.

Apesar de associada à idade avançada, a aterosclerose começa cedo. Estudos de autópsia em adultos jovens e até em adolescentes mostram que estrias gordurosas — o estágio inicial da placa — já estão presentes na maioria das pessoas antes dos 30 anos.

Como a placa se forma

Tudo começa na camada mais interna do vaso, o endotélio. Quando há excesso de colesterol LDL circulando, partículas atravessam o endotélio e se acumulam na parede arterial. O sistema imunológico responde, e células inflamatórias migram para o local, oxidando o LDL e formando as chamadas células espumosas.

Com o tempo, essa inflamação crônica deposita lipídios, cálcio e tecido fibroso, criando a placa aterosclerótica. Ela cresce devagar e, por anos, o vaso compensa o estreitamento. O paciente segue assintomático — mesmo com a doença em progressão ativa.

Por que os sintomas chegam tarde

Sintomas como angina (dor no peito) tipicamente surgem quando a obstrução supera 70% do diâmetro do vaso. Antes disso, o fluxo sanguíneo é suficiente para a demanda em repouso, e o organismo desenvolve circulação colateral.

O problema é que o evento mais grave — o infarto — geralmente não vem da placa mais estreita. Ele vem da ruptura de uma placa instável, frequentemente com obstrução modesta, que expõe seu conteúdo lipídico e dispara a formação súbita de um trombo. Por isso, esperar o sintoma é apostar contra a fisiologia.

Os fatores de risco que aceleram o processo

Colesterol LDL elevado, hipertensão arterial, tabagismo, diabetes, obesidade abdominal, sedentarismo e histórico familiar de doença coronariana precoce são os principais aceleradores. Cada um deles age sobre o endotélio e sobre o ambiente inflamatório das artérias.

O LDL merece destaque: a relação entre seus níveis cumulativos ao longo da vida e o risco de eventos cardiovasculares é causal e dose-dependente. Quanto mais cedo e mais baixo se controla o LDL, menor o risco final.

O que muda com a prevenção precoce

Identificar risco cardiovascular ainda na faixa dos 30 ou 40 anos permite intervir quando a placa é menor, mais estável e mais responsiva ao tratamento. Mudanças de estilo de vida, controle pressórico, manejo do colesterol e, quando indicado, terapia farmacológica reduzem de forma significativa eventos futuros.

Em consultório, avaliar risco não é apenas calcular um escore — é olhar histórico familiar, exames laboratoriais detalhados, perfil inflamatório e, em casos selecionados, exames de imagem como o escore de cálcio coronariano, que quantifica placa já existente mesmo em pessoas sem sintomas.

Conclusão

Aterosclerose não é uma doença que aparece na meia-idade — é uma doença que se manifesta nela. A janela de prevenção é longa, mas só é aproveitada por quem busca avaliação antes do primeiro sintoma. Conhecer o próprio risco é, hoje, o ato mais eficaz de cuidado cardiovascular.

Referências

  • Libby P. The changing landscape of atherosclerosis. Nature. 2021;592:524–533.
  • Diretrizes Brasileiras de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose — SBC, atualização vigente.
  • ESC Guidelines on cardiovascular disease prevention in clinical practice.